sexta-feira, 16 de março de 2012

O GRANDE REBANHO E A FELICIDADE



Valmir Campos

Nunca antes na história da humanidade,  se buscou tanto a felicidade . Mesmo sem conseguir definir  quais parâmetros determinam a felicidade, homens e mulheres  lançam-se  numa busca frenética  rumo a satisfação plena.  Em breve os cientistas, inspirados no Steve Jobs, inventarão o felicidômetro, instrumento que servirá para medir a felicidade.

Através do felicidômetro   a mulher saberá se a compra da bolsa de  R$1000,00  conseguiu aplacar  o vazio deixado por um casamento mal engendrado.

O felicidômetro facilitará você medir a qualidade das relações sexuais.  As mulheres não conseguirão mais disfarçar o orgasmo. Acabada a relação,  o homem conecta o felicidômetro na parceira e lança na Planilha Excel o nível de felicidade proporcionada. Ao final do mês executa o balanço medindo as variáveis, comparando com as metas obtidas nos períodos anteriores.  Então, detectadas as deficiências, poderá  traçar metas,   reavaliar trajetórias , estabelecendo  novas diretrizes rumo ao ápice, ponto máximo  do felicidômetro , ao êxtase total.

Nas relações sociais valeria o mesmo esquema: ao conhecer uma pessoa eu acionaria o detector de felicidades. Só concluiria a transação de amizade se o detector mostrar a capacidade da outra pessoa em  proporcionar  felicidade para mim.

Assim  a humanidade caminharia para o Império da Felicidade. Existiriam os felizes e os infelizes. Segundo o felicidômetro  eliminaria a possibilidade da convivência das diferenças, afinal esse negócio de conviver com as diferenças é coisa de retrógrados, de humanistas babacas, o importante é que meu grupo pense  de forma única e uniforme, todos no grande rebanho, felizes.

Existiriam os Felizes e os Infelizes.

Os felizes teriam como lema a frase máxima de Xuxa Meneghel : “O que importa é ser feliz!” que seria impressa nas fardas da Milícia Feliz. A Milícia Feliz com suas  fardas  coloridas  percorreriam as ruas vigiando os sorrisos das pessoas, gravando as frases de efeito e entusiasmo das pessoas umas para com as outras.

Pressionariam os mal-humorados, infelizes, pessimistas  a se refugiarem no deserto, hordas de infelizes morando nos subterrâneos das grandes cidades, compartilhando sua depressão com os ratos e baratas .
( No passado os  infelizes iniciaram uma rebelião. Começaram a tentar compartilhar a depressão com os felizes, mas eles não tinham paciência nem tempo. Precisavam investir em suas felicidades passando em concursos públicos, nas compras no shopping ou nas baladas até altas horas. Além disso, precisavam carregar a bateria da felicidade nas redes sociais da internet... Psssssssiu A Milícia Feliz também controla as redes sociais).

Os que insistissem em co-habitar com os felizes seriam presos e condenados a , em suas celas, ler os livros do Paulo Coelho, Augusto Cury, Gabriel Chalita e Cia. Se não recuperados,  seriam banidos dos grupos sociais.

E assim , aos poucos, os infelizes, esse cancro social,  seriam eliminados da face da terra. Teríamos  o mundo perfeito, sem diferenças, todos felizes, com seus cachorros, seus filhos, todos em um comercial de margarina.

Todos felizes, torcendo para na próxima encarnação virem como porcos para terem 40 minutos de orgasmo.

Sejamos todos felizes!

Ps: Escrevo essas mal traçadas linhas de minha cela... Eles me pegaram... socorro...Augusto Cury NÃOOOO....SOCORROOOOOOOO...


 O silêncio
Mario Quintana


O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres, peixes abrindo e fechando a
[boca num aquário
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas
[dos estádios...
Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos
[carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo
[trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei, imóvel no
[seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneiros, procissões, tudo isso...
Oh! Decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro...

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