sábado, 31 de julho de 2010

DIGA-ME COM QUEM TU ANDAS? E VIVA CAZUZA!





Como vovó já dizia: “ Diga-me com quem tu andas e te direi quem é!"


Dito e feito. Eu sempre soube que essa máxima é verdadeira. Embora com suas várias nuances.


Vivi isso na pele e jamais me arrependi disso.

Na minha juventude freqüentei todo tipo de ambiente. Como era final da Ditadura Militar e eu era mais rebelde do que sou (que pena), ia a muitos barzinhos e de vários tipos. Naquela época os bares eram bem definidos quanto ao tipo de clientela que freqüentava. Não havia muita mistura de tribos. Freqüentei bares de lésbicas, tinha amigas lésbicas. Freqüentei bares de gays, tinha amigos gays. Tinha muitos amigos músicos e muitos que usavam drogas. A mais usada na época era a maconha, principalmente na periferia, depois outras mais fraquinhas como o lança- perfumes.

Eu era chamado de gay, de maconheiro, de vagabundo, de safado, etc, etc, etc, isso as que eu sei. E, com certeza, outras coisas, que nunca soube.

Nunca peguei em uma "bituca" de maconha. . As únicas drogas que consumia eram álcool e cigarros, vícios que abandonei há muuuuiiiiiito tempo. Nunca mantive relações homossexuais. Não me considero vagabundo, muito pelo contrário, apesar de achar que não nasci para trabalhar (rsrsrsr).

Se o safado era em relação às minhas aventuras de juventude, talvez eu mereça o adjetivo, mas sempre tratei as mulheres com que me relacionei, com muita delicadeza, respeito e cavalheirismo. Nunca saia falando aos quatro ventos com quem tinha “ficado”. A preocupação em preservar as pessoas com as quais tive um relacionamento, eu sempre tive. Acho uma deselegância o contrário.

Então sempre tive um respeito muito grande por todas essas pessoas: gays, lésbicas, maconheiros e aventureiros do amor, etc.

A maioria dos que conheci eram pessoas maravilhosas, agradáveis, solidárias, preocupadas com o coletivo. Não se preocupavam apenas com seus umbigos. Portanto me orgulho de ter convivido com essas pessoas.

Eram pessoas que não desviavam dinheiro público, não acobertavam falta de ética e de profissionalismo no serviço público, não concordavam com injustiças, não eram OMISSOS. Eram "marginais" pois estavam à margem da sociedade.

Mas o ditado de minha avó estava certo. De alguma forma as pessoas tinham razão em falar. Eu poderia não ser nada daquilo, mas tinha uma relação estreita com eles, uma relação de amizade, de companheirismo, circulava com eles, havia determinada cumplicidade. Então me digam com quem eu andava que eu te direi quem eu era.

Roriz e Frejat


Sei que muitos dos quais vão ler essas linhas,  não vão gostar do que vou dizer. Mas não estou aqui para agradar, estou aqui para dizer.

Quando li que o ex-governador do DF Joaquim Roriz havia escolhido Jofran Frejat para candidato a vice-governador, lembrei-me de Cazuza.

A trajetória de Roriz é nebulosa e mal explicada. Se comparada a vida política de Pedro Simon, por exemplo, veremos a diferença da água para o óleo diesel. Sobre a vida política de Pedro Simon não paira uma sombra sequer, uma única duvida sobre o caráter do político gaúcho, é ÁGUA.

Já sobre a vida política do ex-governador do DF...

Se Jofran Frejat, tio de Frejat do Barão Vermelho, anda com Roriz, no mínimo pode ser confundido com ele. Quais explicações de caráter estão implícitas nessa relação?

Cazuza nunca fez acepção de ninguém. Não era careta, não admitia repressão, era rebelde, não aceitava hipocrisia. Tinha atitude, não fazia concessões com a covardia e com autoritarismos. Ele não era o “ cara”, porque para ele, ser “o cara” era aceitar as regras do sistema, era concordar com tudo que ele odiava.


Como presenciei sua trajetória creio que o momento que soube que contraíra AIDS, foi constrangedor e desesperador. Tenho certeza que nos primeiros instantes ele escondeu, mentiu, o que é supernatural no ser humano. O que não significa que tenha sido hipócrita. Foi uma coisa pontual.

Mas depois percebeu a incoerência com a ideologia que traçou para si e retomou  a sua liberdade,  escancarando tudo.

No auge do Barão Vermelho, rompeu com o relacionamento desgastado com os membros do grupo e com a caretice para qual a banda caminhava. Rompeu com a repressora relação e se lançou em uma trajetória criativa, inigualável.

Quando permitimos relações de dominação, podres poderes (como diria Caetano Veloso), relações antiéticas constantes e não tomamos uma atitude mais consistente, somo iguais ou até mesmo piores que os agentes que cometeram aqueles grandes deslizes normais nos humanos”

A ética seja no trabalho, em casa, na igreja, clube, em nossas relações amorosas, resumindo, em nossas relações sociais, cabe certa tolerância, mas nunca concessões.

Não alcançamos nossa liberdade se nos omitimos nessas ocasiões.


Somente quando percebemos o nó que nos ata e rompemos com aquilo que nos oprime, é que realmente podemos ser livres.

E então? DIGA-ME COM QUEM TU ANDAS?

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domingo, 25 de julho de 2010

Ê AÊ PROFESSOR


Sempre acreditei , e continuarei acreditando até a minha morte, que somente através da reflexão, da geração de polêmicas, do “cutucar” o “ser humano” (onça) com a vara curta, é que conseguimos avançar em nossa evolução nesta curta passagem por esse mundão véio sem porteira.

Não posso negar que a mesmice, que a mediocridade, que uma vida morna, como diria Clarice Lispector, além de me deprimir profundamente, muitas vezes me engessou em devaneios e impasses existenciais. Por isso deixei de fazer muitas coisas (e muitas mesmo).

Minha resistência as técnicas de auto-ajuda me afastaram, de certa forma, da psicologia verdadeira. Sempre ri da psicologia de botequim.

Por isso me dói no ouvido as frases prontas de meus alunos (as)e demais pessoas. As frases decoradas, sem as devidas reflexões.

Devemos incentivar a rebeldia sadia, a contestação, a oposição de idéias que geram conflitos agradáveis ( Pode um conflito ser agradável? Claro que sim!). E essa é a função do professor.

A mediocridade é que não pode ser estimulada. A mediocridade iguala as coisas por baixo.

Detesto ser igualado a qualquer coisa medíocre. Então me esforço para não sê-lo, e olha que é difícil nesse mundinho “forçosamente” politicamente correto.

Assistindo futebol, seja na televisão ou na beira de campinhos de “peladas”,  vejo adultos e garotos chamando os treinadores e até mesmo os árbitros de “professor”.

Muitos treinadores profissionais são formados em Educação Física, são profundos estudiosos,  então merecem ser chamados de professor.

Dolorido é ver qualquer um ser chamado de professor. O cara tem uma profissão qualquer, vai apitar um joguinho de final de semana do juvenil do Zé Ruela Futebol Clube contra o Sport Clube Gosto de Pagode. Ao fazer uma falta o zagueiro lasca um : “Ê aê ‘professor’! Não fiz nada”.

Igualar um professor a qualquer um, demonstra como a sociedade enxerga, hoje em dia, a função de professor: qualquer um pode ser, até o Dunga .

A nostalgia e importância da função de “educar” está mesmo deturpada.

Estou pensando em comprar um cão. O nome  vai ser igual ao que meu sobrinho deu ao cachorro dele: DEPUTADO, mas pode ser também PROFESSOR.

Aí todo dia vou gritar: “Professor, já prá dentro!” , “Professor, VEM...VEM!”.

E todo dia quando chegar em casa, vou falar carinhosamente: “Ê AÊ PROFESSOR”.

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segunda-feira, 12 de julho de 2010

IVETE SANGALO E MINHA PACUERA

 Meu pai não tinha muita instrução. Terminou o segundo grau fazendo supletivo e conseguiu, com muito esforço, chegar a se aposentar como 1º Tenente da polícia militar de São Paulo. Mas tinha uma leitura muito vasta. Os poucos momentos que passamos juntos sempre via, que a noite  reservava um tempo para ler e fazer anotações. E adorava histórias, principalmente as que envolvia diabos. E eram histórias do folclore brasileiro que iam além das superficiais que conhecemos, do Curupira, Saci-Pererê e Cia Ltda.



Essas histórias  tinham uma moral que chamava a atenção para a preocupação do ser humano com as questões materiais. E que essa preocupação salientava a falta de caráter do ser humano que se preocupa com questões fúteis e de gozos imediatos.

A atual sociedade se caracteriza pela importância demasiada com o consumo, com a estética corporal. O mais importante é TER e não SER.

Li uma reportagem falando de um show que Ivete Sangalo fez e no meio do espetáculo ela perguntou a platéia: “- Sou bonita? Sou gostosa?”

Me parece que a Cláudia Leite também faz isso em seus shows.

Esse é um típico comportamento que demonstra a que nível chegou nossa sociedade. Uma sociedade fútil que só consegue usar seu cérebro para liberar os hormônios sexuais. E os “grandes ídolos”, sabendo disso, usam esses artifícios para ganhar cada vez mais dinheiro.


Mas vamos lá a uma das história de meu pai:

Êêêêêêêêêêêêê minha pacuera


Lá pelos idos de 1930 dois irmãos tropeiros viajavam pelo sertão. Estavam há muitos dias na estrada e com pouco alimento. O irmão mais velho falou: “-Estou com tanta fome que poderia comer qualquer coisa.”

Foi então que encontraram pelo caminho uma pacuera. Então, o irmão mais velho disse:

— Vou assar e comer este bofe.

— Deus me livre disso! — falou o outro se benzendo — Você nem sabe de quem é essa pacuera...

— Está fresca. Quem perdeu não importa. É sinal que estava sobrando. Não vai me dar dor de barriga.

Assou calmamente a pacuera no espeto e comeu-a, rindo do irmão que jantou só farinha.

Foram dormir e já era bem tarde, quando acordaram sobressaltados, ao som de uma voz que urrava:

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

- O que é isso? Perguntou o irmão mais novo.

- Não sei! Respondeu o mais velho.

E novamente se ouviu:

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

Era o diabo que tinha deixado a pacuera no meio do caminho. O coisa-ruim foi bem direto no lugar onde o moço a encontrara. O irmão mais novo correu e subiu a uma árvore. O mais velho fez pé firme. O diabo, não achando o que procurava, perguntou ao moço:

— Onde está minha pacuera?

— Assei e comi.

O diabo ficou indignado.

— Você assou a minha pacuera? Pois agora eu vou assar e comer a sua, porque sem pacuera é que eu não posso ficar.

E foi uma infernal correria, pelo meio das árvores, com uma arrepiada testemunha tremendo e rezando, encarapitada numa delas, até que o diabo alcançou o moço e pôs-se a jogá-lo para cima, e a apará-lo, tornando a jogá-lo tão alto que passava as nuvens e sumia no ar, exatamente como se fosse uma peteca, insensível e leve. Deu meia-noite e a folia acabou. O rapaz que estava na árvore esperou o dia raiar, desceu, correu para o lugar onde permanecera o corpo. O irmão mais novo viu que o morto não tinha mais pacuera.

FIM


O ser humano está cada dia mais ser humano...querendo comer nossa pacuera.
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Significado de pacuera:
Substantivo feminino
1.  Vícera humana, especialmente o coração.
2..As vísceras tiradas de boi, porco ou carneiro abatido.

sábado, 10 de julho de 2010

VOCÊ É UM COVARDE?



A prisão do goleiro Bruno, assim como a do casal Nardoni mostra o quanto o público se envolve e o quanto esse envolvimento é mais emocional do que racional.

Isso é demonstrado na chegada dos “acusados” a delegacia. O público se aglomera para apreciar o “espetáculo” e todos começam a xingá-los de assassinos e outros palavrões, que não vou me atrever a descrevê-los aqui.

Quando o ser humano está em bando fica extremamente corajoso, principalmente quando sabe que a sua vítima está impossibilitado de reagir.

Gostaria de vê-los agredindo frente a frente, sem a “proteção” dos policiais.

O ser humano tem ficado cada vez mais covarde. Adora se esconder e falar por trás, mas enfrentar que é bom...

Como professor, tenho presenciado cada vez mais isso. Nas reuniões de professores das quais tenho participado nos últimos anos, os professores, que deveriam ser exemplos de participação, contestação, crítica e coragem tem, cada vez mais, enfiado a cabeça no buraco como avestruz e fugido das responsabilidades da vida em coletividade.

Falar sobre ética é fácil, o difícil é lutar para que ela seja alcançada em seu pequeno universo, em casa e no trabalho. Defendendo as pessoas que são vítimas de perseguições por caprichos individuais de colegas e/ou chefes.

A sociedade reflete esse comportamento e, como já disse,  as escolas são o espelho da sociedade.

A exigência de princípios éticos se faz necessário, ou então que cada um assuma as conseqüências da permissividade e aceite agressões de todas as partes. Coisa que agrada quem tem o poder nas mãos. A bagunça sempre favorece quem detém o poder.

Afinal de contas, depois pode manipular as penalidades das agressões da maneira que quiser. Era assim na ditadura militar e vai demorar a alterar a situação.

Vivemos em uma sociedade de covardes que preferem continuar em sua zona de conforto a alterarem a sua própria realidade. Ainda mais quando, mesmo acreditando estarem certos, é escancarada sua podridão interna.

É como eu digo: “O ser humano está cada vez mais ser humano”.
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segunda-feira, 5 de julho de 2010

A FADA AZUL E O MENINO DE VERDADE




Dias desses uma aluna muito querida me deu uma bronca. Falou que minha tia Tereza deveria ter me dado um “BEIJO NA BOCA”* por ter deixado de trabalhar em determinada escola.

Na verdade não gostaria de ter deixado a escola. Identificava-me muito com os alunos, a maioria deles estava comigo desde a 5ª série, e agora era 8ª série, a despedida de um ciclo. Gostaria de estar com eles neste momento. Alguns deles podem dizer com certeza tornaram-se muito queridos para mim.

Lembrei novamente do Pinóquio. História que para mim tem centenas de lições, além de ser extremamente divertida. Tenho este filme e assisto sempre.

Em determinado momento o Grilo Falante, que é a consciência de Pinóquio nomeada pela Fada Azul, diz que vai deixá-lo e argumenta que: “Um ator não precisa de consciência”.

Pinóquio estava deslumbrado com o possível sucesso em ser ator, então não conseguia ouvir sua consciência.

Assim é na vida, pessoas estão tão ensimesmadas em suas vidinhas, suas rotinas e seus “privilégios”, que se esquecem de sua consciência.

É claro que devemos ser flexíveis, tentar negociar, fazer de conta que não ouvimos muita coisa. Mas existem coisas das quais não podemos abrir mão. Coisas das quais nossa consciência declama em poesias ou em socos fortes como de um pugilista.

Não sou perfeito, mas ainda tenho consciência e meu Grilo Falante disse: “É hora de ir embora”.
Não há o que fazer ou o que compartilhar quando a maioria está como zumbis, sem a menor noção do que acontece.

 

Quando necessário, deixe pessoas queridas, vá em direção a baleia, seja engolido,  saia da baleia, nade até a praia, se afogue. Mas nunca abra mão de seus princípios.

Estou na cama do Gepeto esperando a Fada Azul, quem sabe me torne um menino de verdade.

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Beijos Rafaela

* VER BEIJO NA BOCA -  21 DE JUNHO