Meu pai não tinha muita instrução. Terminou o segundo grau fazendo supletivo e conseguiu, com muito esforço, chegar a se aposentar como 1º Tenente da polícia militar de São Paulo. Mas tinha uma leitura muito vasta. Os poucos momentos que passamos juntos sempre via, que a noite reservava um tempo para ler e fazer anotações. E adorava histórias, principalmente as que envolvia diabos. E eram histórias do folclore brasileiro que iam além das superficiais que conhecemos, do Curupira, Saci-Pererê e Cia Ltda.
Essas histórias tinham uma moral que chamava a atenção para a preocupação do ser humano com as questões materiais. E que essa preocupação salientava a falta de caráter do ser humano que se preocupa com questões fúteis e de gozos imediatos.
A atual sociedade se caracteriza pela importância demasiada com o consumo, com a estética corporal. O mais importante é TER e não SER.
Li uma reportagem falando de um show que Ivete Sangalo fez e no meio do espetáculo ela perguntou a platéia: “- Sou bonita? Sou gostosa?”
Me parece que a Cláudia Leite também faz isso em seus shows.
Esse é um típico comportamento que demonstra a que nível chegou nossa sociedade. Uma sociedade fútil que só consegue usar seu cérebro para liberar os hormônios sexuais. E os “grandes ídolos”, sabendo disso, usam esses artifícios para ganhar cada vez mais dinheiro.
Mas vamos lá a uma das história de meu pai:
Êêêêêêêêêêêêê minha pacuera
Lá pelos idos de 1930 dois irmãos tropeiros viajavam pelo sertão. Estavam há muitos dias na estrada e com pouco alimento. O irmão mais velho falou: “-Estou com tanta fome que poderia comer qualquer coisa.”
Foi então que encontraram pelo caminho uma pacuera. Então, o irmão mais velho disse:
— Vou assar e comer este bofe.
— Deus me livre disso! — falou o outro se benzendo — Você nem sabe de quem é essa pacuera...
— Está fresca. Quem perdeu não importa. É sinal que estava sobrando. Não vai me dar dor de barriga.
Assou calmamente a pacuera no espeto e comeu-a, rindo do irmão que jantou só farinha.
Foram dormir e já era bem tarde, quando acordaram sobressaltados, ao som de uma voz que urrava:
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- O que é isso? Perguntou o irmão mais novo.
- Não sei! Respondeu o mais velho.
E novamente se ouviu:
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
Era o diabo que tinha deixado a pacuera no meio do caminho. O coisa-ruim foi bem direto no lugar onde o moço a encontrara. O irmão mais novo correu e subiu a uma árvore. O mais velho fez pé firme. O diabo, não achando o que procurava, perguntou ao moço:
— Onde está minha pacuera?
— Assei e comi.
O diabo ficou indignado.
— Você assou a minha pacuera? Pois agora eu vou assar e comer a sua, porque sem pacuera é que eu não posso ficar.
E foi uma infernal correria, pelo meio das árvores, com uma arrepiada testemunha tremendo e rezando, encarapitada numa delas, até que o diabo alcançou o moço e pôs-se a jogá-lo para cima, e a apará-lo, tornando a jogá-lo tão alto que passava as nuvens e sumia no ar, exatamente como se fosse uma peteca, insensível e leve. Deu meia-noite e a folia acabou. O rapaz que estava na árvore esperou o dia raiar, desceu, correu para o lugar onde permanecera o corpo. O irmão mais novo viu que o morto não tinha mais pacuera.
FIM
O ser humano está cada dia mais ser humano...querendo comer nossa pacuera.
Copyright "©" 2010 preservado todos os direitos do autor.
Significado de pacuera:Copyright "©" 2010 preservado todos os direitos do autor.
Substantivo feminino
1. Vícera humana, especialmente o coração.
2..As vísceras tiradas de boi, porco ou carneiro abatido.

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