segunda-feira, 12 de julho de 2010

IVETE SANGALO E MINHA PACUERA

 Meu pai não tinha muita instrução. Terminou o segundo grau fazendo supletivo e conseguiu, com muito esforço, chegar a se aposentar como 1º Tenente da polícia militar de São Paulo. Mas tinha uma leitura muito vasta. Os poucos momentos que passamos juntos sempre via, que a noite  reservava um tempo para ler e fazer anotações. E adorava histórias, principalmente as que envolvia diabos. E eram histórias do folclore brasileiro que iam além das superficiais que conhecemos, do Curupira, Saci-Pererê e Cia Ltda.



Essas histórias  tinham uma moral que chamava a atenção para a preocupação do ser humano com as questões materiais. E que essa preocupação salientava a falta de caráter do ser humano que se preocupa com questões fúteis e de gozos imediatos.

A atual sociedade se caracteriza pela importância demasiada com o consumo, com a estética corporal. O mais importante é TER e não SER.

Li uma reportagem falando de um show que Ivete Sangalo fez e no meio do espetáculo ela perguntou a platéia: “- Sou bonita? Sou gostosa?”

Me parece que a Cláudia Leite também faz isso em seus shows.

Esse é um típico comportamento que demonstra a que nível chegou nossa sociedade. Uma sociedade fútil que só consegue usar seu cérebro para liberar os hormônios sexuais. E os “grandes ídolos”, sabendo disso, usam esses artifícios para ganhar cada vez mais dinheiro.


Mas vamos lá a uma das história de meu pai:

Êêêêêêêêêêêêê minha pacuera


Lá pelos idos de 1930 dois irmãos tropeiros viajavam pelo sertão. Estavam há muitos dias na estrada e com pouco alimento. O irmão mais velho falou: “-Estou com tanta fome que poderia comer qualquer coisa.”

Foi então que encontraram pelo caminho uma pacuera. Então, o irmão mais velho disse:

— Vou assar e comer este bofe.

— Deus me livre disso! — falou o outro se benzendo — Você nem sabe de quem é essa pacuera...

— Está fresca. Quem perdeu não importa. É sinal que estava sobrando. Não vai me dar dor de barriga.

Assou calmamente a pacuera no espeto e comeu-a, rindo do irmão que jantou só farinha.

Foram dormir e já era bem tarde, quando acordaram sobressaltados, ao som de uma voz que urrava:

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

- O que é isso? Perguntou o irmão mais novo.

- Não sei! Respondeu o mais velho.

E novamente se ouviu:

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera
- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

- Êêêêêêêêêê minha pacuera... cuera... cuera ...cuera...cuera

Era o diabo que tinha deixado a pacuera no meio do caminho. O coisa-ruim foi bem direto no lugar onde o moço a encontrara. O irmão mais novo correu e subiu a uma árvore. O mais velho fez pé firme. O diabo, não achando o que procurava, perguntou ao moço:

— Onde está minha pacuera?

— Assei e comi.

O diabo ficou indignado.

— Você assou a minha pacuera? Pois agora eu vou assar e comer a sua, porque sem pacuera é que eu não posso ficar.

E foi uma infernal correria, pelo meio das árvores, com uma arrepiada testemunha tremendo e rezando, encarapitada numa delas, até que o diabo alcançou o moço e pôs-se a jogá-lo para cima, e a apará-lo, tornando a jogá-lo tão alto que passava as nuvens e sumia no ar, exatamente como se fosse uma peteca, insensível e leve. Deu meia-noite e a folia acabou. O rapaz que estava na árvore esperou o dia raiar, desceu, correu para o lugar onde permanecera o corpo. O irmão mais novo viu que o morto não tinha mais pacuera.

FIM


O ser humano está cada dia mais ser humano...querendo comer nossa pacuera.
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Significado de pacuera:
Substantivo feminino
1.  Vícera humana, especialmente o coração.
2..As vísceras tiradas de boi, porco ou carneiro abatido.

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