terça-feira, 1 de junho de 2010

"SUMITÉRIO”


Meu pai tinha muitos defeitos,   muitos mesmo (como todos nós). Uma de suas qualidades, que também eram muitas,   muitas mesmo (como todos nós) era ser bonachão e ter uma sabedoria sarcástica e sutil. Fazia brincadeiras aparentemente “sem graça e significado”, às vezes também ridículas. Confesso que, às vezes (e muitas) tinha certa... vergonha. Mas o passar dos anos é necessário para que os jovens entendam o que os “mais velhos” querem dizer, mesmo através de brincadeiras. Antes tarde do que nunca.
Principalmente após sua morte, comecei a compreender o significado de suas colocações, brincadeiras,  críticas e,  de uma inteligência ímpar.
Uma dessas brincadeiras era visitar cemitérios e me chamar para o “passeio”. Daí meu gosto pela arquitetura de cemitérios, principalmente os antigos, bem mais interessantes do que os pálidos  e frios, novos cemitérios. Quando me chamava dizia: “Vamos ao “sumitério”? Prontamente eu respondia que sim, claro que com um medo de borrar as calças. Não entendia por que ele falava “sumitério” e nunca perguntei. Quando ele morreu e fui ao seu velório, me decepcionei. Ele havia comprado seu “terreno” em um cemitério belíssimo, sem aqueles túmulos solenes (a que todo morto tem direito) , daqueles em que só aparecem a lápide e um mar de grama. Não dá para ter medo de um cemitério assim. Não é cemitério, é um SPA de finados. Cemitério foi feito para se apreciar a arquitetura e, especialmente para se ter medo. As estátuas, os mármores, as tumbas mal conservadas, as diferenças sociais e econômicas evidenciadas e escancaradas na construção dos túmulos. Nada disso estava presente, coisas que eram abundantes nos “sumitérios” em que ele me levava para visitar.

Percebi que até mesmo a morte, e meu pai,  haviam sucumbido à era da globalização.

E mais  que isso, compreendi porque ele chamava cemitério de “sumitério”: ele havia sumido da minha vida, lá é o lugar onde as pessoas somem.
Afinal de contas todos nós um dia vamos sumir... 

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Um comentário:

  1. Poxa cara lembrei demai do nosso pai foi como se ele estivesse aqui, que saudades, agora com 47 anos e que comecei a entende-lo, porque não ouvi isso antes....... vanda caMPOS

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