quarta-feira, 30 de junho de 2010

AULAS CHATAS E O COCÔ DA MINHA FILHA

Esses dias acordei dentro do horário previsto, mas como é de costume , minha filha , Elisa Bella, enrolou ao máximo para comer . Filhos adoram fazer os pais perderem os horários, parece que fazem cursos para conseguir isso.

Depois de pronta, se agachou e começou a fazer cocô. Como de costume demorou um pouco. Então fiquei perguntando se havia terminado (por que temos que ficar repetindo cem vezes a mesma pergunta para nossos filhos? Risos). Chegou uma hora que não deu mais para esperar então fui mais “brusco” na minha pergunta, rispidez que veio de volta com a resposta.

Adoro a rispidez e a rebeldia de minha filha de 3 anos. Pergunta ríspida, resposta ríspida. Bem feito para mim.

Quando fui limpá-la só havia um pouquinho de cocô, sinal de que ela não terminara, então fiquei com peso na consciência.

Isso me fez lembrar as discussões pedagógicas na sala de professores, nas escolas nas quais fui professor. Sem exceção de nenhuma, os professores ficam discutindo as regras para que os alunos possam ir ao banheiro: “Acho que só pode ir no 2º e 5º horário.”, “Eles têm que aprender a se controlar, já são ‘crescidinhos’.” “Eu não deixo ir ao banheiro.”

Como se as questões orgânicas fossem tão simples ao ponto de colocarmos uma regra: “Neste horário você não pode cagar, desculpe-me mas regras são regras.” “Só pode cagar no 3º ou 5º horário, nos demais tem que segurar”

Todo ano a mesma discussão e blá, blá, blá, blá, blá ( que a gente vai falar aqui)

Enquanto os horários do cagão e mijão vão sendo discutidos na sala dos professores, as aulas continuam chatas e insuportáveis e os alunos não sabem conjugar nem mesmo o verbo cagar.

Tenho que parar por aqui.....vou ao banheiro tchau.
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sábado, 26 de junho de 2010

JUNINHO E O PINÓQUIO



Um dia desses encontrei um amigo que não via há mais de vinte anos, Alfredo Ferreira Júnior, o Juninho. Conversamos via net. Amigo de adolescência. Com ele fundamos uma banda, compusemos algumas musicas, participamos de festivais e compartilhamos noites com vinho Chapinha, aventuras, violão e sonhos futuros.



Não lembro quanto, mas ele era mais velho do que eu. Pouco, talvez um ou dois anos. Estudamos na mesma escola. Fernando Costa de Lins, SP. Eu no 1º ano do Ensino Médio, ele na 6ª ou 7ª série do Ensino Fundamental.

Depois de várias horas de conversa, piadas sobre nosso destino e lembranças do passado, ele me revelou que s e pudesse não faria algumas coisas do passado.

Falou para mim que se arrependia de não ter me ouvido. Sempre falava para ele que matar aulas não iria levá-lo a lugar algum.

Então me lembrei de um trabalho do Rubem Alves, Pinóquio às Avessas. A história de Pinóquio é interessante, mas a moral da história é muito “Caxias”: “Só estudando muito e obedecendo aos pais e a consciência, é que nos tornamos pessoas de verdade.” Ou seja , temos que ser modelos de pessoas , ter sucesso na vida financeira, ter carro, casa, família, etc. Tudo o que é padrão para a sociedade.

Eu nunca fui certinho. Matei aulas pouquíssimas vezes. Algumas vezes para encontrar garotas, umas para ver os treinos do Clube Atlético Linense, outras para jogar futebol. Mas foram poucas vezes. Fiz muitas coisas escondidas de minha mãe. Mas tentava não fazer nada que ela pudesse descobrir e me torrar a paciência, o que toda mãe faz com muita habilidade (mas com muito amor).

Sempre admirei o Juninho por ele ser “meio” inconseqüente e fazer a maioria das coisas que queria. Um de seus dons era a música. Seu sempre quis ter seu dom e facilidade para a música, afinal de contas sempre sonhei em viver de música. Mas não tive esse privilégio.

Ele também faz belos objetos de marcenaria, é um artesão de primeira qualidade. Sempre quis ter habilidade como artesão. Não tive esse privilégio.

O prazer de viver não está no “enquadramento” da moda. Você ter a televisão da última geração, ou o mais novo celular, ou um carro zero, etc, não te dará prazer. São nas pequenas coisas que você se lambuzará.

Um pouco de rebeldia faz bem a qualquer pessoa. Mas lembre-se, sempre com responsabilidade.



Não sei ainda quais  dons o “destino” me reservou. Mas lembrando do Pinóquio ás Avessas,  a resposta para Juninho veio de bate pronto a minha boca:

 “Eu falei isso para você?? Devia ter  matado mais aulas com você.”

Valmir Campos
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segunda-feira, 7 de junho de 2010

SOBRE PODER E EDUCAÇÃO II

AUTORIDADE E AUTORITARISMO


Autoritarismo e autoridade são dois conceitos bastante diferentes, antagônicos, mas infelizmente, ás vezes complementares. Podemos exercer a autoridade com autoritarismo. O autoritarismo está ligado a práticas antidemocráticas e anti-sociais, mesmo que sutis. As pessoas que detém o poder manipulam as instituições que comandam, alguns (muitos) diretores em suas “direções” e alguns  (muitos) professores em suas salas, levando  alunos (e professores também) a fazerem exatamente o que querem. Ou podem fazer isso através da força por ameaças,  punição,  perseguição.


Autoridade ao contrário, tem como objetivo levar o ser humano a compreender as normas colocadas pela sociedade, a julgar se são legítimas ou não e buscar se tornar mais humana e mais democrática a vida em coletividade.


É mais fácil conseguir que os alunos não levem um corretivo para a escola do que fazê-los compreender a importância que é a participação efetiva na gestão, dita democrática, das escolas, fiscalizando a aplicação do dinheiro que se recebe,  professores que saem da escola para realizar  outras atividades , se existe projeto político pedagógico, se este projeto é cumprido, quais ações estão sendo tomadas no sentido de ofertar uma escola de qualidade, etc.

É cômodo que a comunidade não participe, as decisões podem ser tomadas por uma “elite pensante” (direção e alguns professore) que fazem o que querem da escola, como se fosse seu quintal.


A educação, seja aquela a cargo da família ou da escola, tem o objetivo de levar crianças e jovens a transpor seus limites pessoais como ser humano, mas a partir de princípios éticos, morais, existenciais que deveriam reger a sociedade.


Os alunos sabem exatamente quando a escola e seu corpo docente (professores e diretores) não conseguem exercer sua autoridade e partem para o autoritarismo. Falam a quem quiser ouvir: “Nesta escola ninguém é punido (inclua-se aí professores que fogem aos princípios éticos)”. “Nesta escola não se pode fazer nada”. “Nesta escola os professores fazem o que querem e nos tratam da maneira como quiserem”.


Os alunos sabem que a colocação de limites faz parte do processo educativo e a ausência dessa prática pode gerar selvageria. O autoritário é selvagem, o que vale é a lei do mais forte, do que detém maior poder, do que consegue manipular situações ao invés de compartilhar situações.


Falta que os professores e diretores também saibam.


Selvagem podem não ser apenas os alunos, professores e diretores também podem o ser, depende do que eles se proponham a ser, autoridades ou autoritários.

“Os ditadores cavalgam para a frente e para trás sobre tigres dos quais não ousam descer. E os tigres vão ficando cada vez mais famintos.”W. Churchill (político britânico, 1874-1965)

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terça-feira, 1 de junho de 2010

"SUMITÉRIO”


Meu pai tinha muitos defeitos,   muitos mesmo (como todos nós). Uma de suas qualidades, que também eram muitas,   muitas mesmo (como todos nós) era ser bonachão e ter uma sabedoria sarcástica e sutil. Fazia brincadeiras aparentemente “sem graça e significado”, às vezes também ridículas. Confesso que, às vezes (e muitas) tinha certa... vergonha. Mas o passar dos anos é necessário para que os jovens entendam o que os “mais velhos” querem dizer, mesmo através de brincadeiras. Antes tarde do que nunca.
Principalmente após sua morte, comecei a compreender o significado de suas colocações, brincadeiras,  críticas e,  de uma inteligência ímpar.
Uma dessas brincadeiras era visitar cemitérios e me chamar para o “passeio”. Daí meu gosto pela arquitetura de cemitérios, principalmente os antigos, bem mais interessantes do que os pálidos  e frios, novos cemitérios. Quando me chamava dizia: “Vamos ao “sumitério”? Prontamente eu respondia que sim, claro que com um medo de borrar as calças. Não entendia por que ele falava “sumitério” e nunca perguntei. Quando ele morreu e fui ao seu velório, me decepcionei. Ele havia comprado seu “terreno” em um cemitério belíssimo, sem aqueles túmulos solenes (a que todo morto tem direito) , daqueles em que só aparecem a lápide e um mar de grama. Não dá para ter medo de um cemitério assim. Não é cemitério, é um SPA de finados. Cemitério foi feito para se apreciar a arquitetura e, especialmente para se ter medo. As estátuas, os mármores, as tumbas mal conservadas, as diferenças sociais e econômicas evidenciadas e escancaradas na construção dos túmulos. Nada disso estava presente, coisas que eram abundantes nos “sumitérios” em que ele me levava para visitar.

Percebi que até mesmo a morte, e meu pai,  haviam sucumbido à era da globalização.

E mais  que isso, compreendi porque ele chamava cemitério de “sumitério”: ele havia sumido da minha vida, lá é o lugar onde as pessoas somem.
Afinal de contas todos nós um dia vamos sumir... 

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