terça-feira, 2 de junho de 2015

O DIABO QUE MORAVA EMBAIXO DA PIA EM MINHA COZINHA



Quando eu era pequeno adorava ouvir estórias de fantasmas, saci, mula-sem-cabeça, as quais meu pai, o Sr. Idézio, contava como só os mestres contadores de estórias sabem contar. Nos sentava na área de casa que dava vista para a escuridão total da Chácara do Seu Marcilio, na Avenida Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183) em Diadema, grande São Paulo, escuridão  que só era quebrada pelas luzes dos vaga-lumes.

Suas estórias eram assustadoras, mas charmosas e cheias de assovios, caras e bocas.

Entre essas várias estórias, a do Diabo que morava embaixo da nossa pia era a que mais me assustava. As mulas sem cabeça, sacis, cuca e Cia Ltda. viviam na floresta, ou na Chácara do Seu Marcílio, o Diabo não. Morava embaixo da pia na  cozinha lá de casa.

Dizia ele que toda noite, exatamente a meia noite o capetinha (como ele se referia ao capiroto) aparecia embaixo da pia da nossa cozinha e ficava bebendo pinga, fumando charuto e rindo muito. Era vermelho com chifres, diabo típico.

No auge dos meus musculosos cinco anos, eu que dizia ser o super-homem, não conseguia mais olhar para debaixo da pia, principalmente à noite.

As vezes comia banana na sala e jogava a casca pelo corredor em direção a cozinha escura, que de tão escura parecia a Chácara de Seu Marcílio.

Minha mãe chamava minha atenção e me obrigava a ir pegar. Eu me negava e ela perguntava: Você não é o super-homem? Meu orgulho de meus cinco anos de idade não permitia que uma mulher denegrisse minha imagem. Mentalmente eu fazia o percurso da sala até a casca de banana e a cesta de lixo. Fechava os olhos e, feito um maratonista de 100 metros rasos, de olhos fechados,  em velocidade supersônica corria em direção a casca de banana e jogava ao cesto. E em uma velocidade ultra-mega-supersônica voltava correndo a sala, são e salvo, longe da escuridão da Chácara do Seu Marcílio, opa, digo, a sala de casa.

Fui crescendo e o diabo que morava embaixo da pia na cozinha lá de casa, na Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183) em Diadema, grande São Paulo, me acompanhou (metaforicamente) pelas cidades onde morei. Para mim sempre existiu e sempre existirá um capetinha  (metaforicamente) embaixo da pia na cozinha lá de casa.

Cresci e minhas crenças foram tornando-se descrenças, umas para o bem e outras talvez, para o mal,





Ultimamente tenho visto a brincadeira do “Charlie! Você está aí? ”. A brincadeira consiste em colocar uma caneta em cima de outra em forma de cruz com um papel escrito: Yes ou No e invocar Charlie, o Espirito mexicano. A brincadeira tem provocado gritos, histeria coletiva entre jovens, inclusive com estudantes ficando machucados nessa histeria coletiva.

Meu Deus, até as estórias de diabo pioraram. Quem imaginou um demônio ser invocado a partir de duas canetas cruzadas que formam umaaaaaaaaa: CRUZ.  Nas rodas de Umbanda, até os espíritos de esquerda reclamam: “ Tem alguém com os braços cruzados! Tá atrapaiando os trabaios”. Drácula, foge da cruz. O lobisomem foge da cruz.


O demônio moderno é invocado a partir de duas canetas cruzadas. Meu Deus:  Hoje NEM O DIABO FOGE DA CRUZ!


Isso me fez lembrar o diabo que morava embaixo da pia na minha cozinha, na Avenida Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183), Diadema, grande São Paulo, em frente a Chácara do Seu Marcílio. Hoje à noite ele vai aparecer (metaforicamente) , exatamente a meia noite e vai falar:


QUANTO MISTICISMO CONSEGUI COLOCAR NA MENTE HUMANA. AO INVÉS DE SE CONCENTRAREM NAS COISAS BOAS QUE AQUELE QUE SE CHAMA DEUS FEZ, FICAM TENTANDO ENTRAR EM CONTATO COMIGO,  SEM SABER QUE JÁ FAÇO PARTE DO SEU DIA-A-DIA.


Vai beber pinga, fumar charuto e rir com vontade, a noite inteirinha (não metaforicamente).


2 comentários:

  1. Como eu queria voltar no túnel do tempo e parar em 2015, no momento em que vc escreveu sobre esses demônios.. se soubéssemos que tipo de demônios nos aguardavam em 2022...

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