Quando eu era pequeno adorava
ouvir estórias de fantasmas, saci, mula-sem-cabeça, as quais meu pai, o Sr.
Idézio, contava como só os mestres contadores de estórias sabem contar. Nos
sentava na área de casa que dava vista para a escuridão total da Chácara do Seu
Marcilio, na Avenida Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183) em Diadema,
grande São Paulo, escuridão que só era quebrada pelas luzes dos vaga-lumes.
Suas estórias eram assustadoras,
mas charmosas e cheias de assovios, caras e bocas.
Entre essas várias estórias, a do
Diabo que morava embaixo da nossa pia era a que mais me assustava. As mulas sem
cabeça, sacis, cuca e Cia Ltda. viviam na floresta, ou na Chácara do Seu
Marcílio, o Diabo não. Morava embaixo da pia na cozinha lá de casa.
Dizia ele que toda noite,
exatamente a meia noite o capetinha (como ele se referia ao capiroto) aparecia
embaixo da pia da nossa cozinha e ficava bebendo pinga, fumando charuto e rindo
muito. Era vermelho com chifres, diabo típico.
No auge dos meus musculosos cinco
anos, eu que dizia ser o super-homem, não conseguia mais olhar para debaixo da
pia, principalmente à noite.
As vezes comia banana na sala e
jogava a casca pelo corredor em direção a cozinha escura, que de tão escura
parecia a Chácara de Seu Marcílio.
Minha mãe chamava minha atenção e
me obrigava a ir pegar. Eu me negava e ela perguntava: Você não é o
super-homem? Meu orgulho de meus cinco anos de idade não permitia que uma
mulher denegrisse minha imagem. Mentalmente eu fazia o percurso da sala até a
casca de banana e a cesta de lixo. Fechava os olhos e, feito um maratonista de
100 metros rasos, de olhos fechados, em velocidade supersônica corria em direção
a casca de banana e jogava ao cesto. E em uma velocidade ultra-mega-supersônica
voltava correndo a sala, são e salvo, longe da escuridão da Chácara do Seu
Marcílio, opa, digo, a sala de casa.
Fui crescendo e o diabo que
morava embaixo da pia na cozinha lá de casa, na Visconde do Rio Branco, 104
(antigo 183) em Diadema, grande São Paulo, me acompanhou (metaforicamente) pelas cidades onde
morei. Para mim sempre existiu e sempre existirá um capetinha (metaforicamente) embaixo da pia na
cozinha lá de casa.
Cresci e minhas crenças foram
tornando-se descrenças, umas para o bem e outras talvez, para o mal,
Ultimamente tenho visto a
brincadeira do “Charlie! Você está aí? ”. A brincadeira consiste em colocar uma caneta em cima de outra em forma de cruz com um papel
escrito: Yes ou No e invocar Charlie, o Espirito mexicano. A brincadeira tem
provocado gritos, histeria coletiva entre jovens, inclusive com estudantes
ficando machucados nessa histeria coletiva.
Meu Deus,
até as estórias de diabo pioraram. Quem imaginou um demônio ser invocado a
partir de duas canetas cruzadas que formam umaaaaaaaaa: CRUZ. Nas rodas de Umbanda, até os espíritos de
esquerda reclamam: “ Tem alguém com os braços cruzados! Tá atrapaiando os
trabaios”. Drácula, foge da cruz. O lobisomem foge da cruz.
O demônio moderno é invocado a partir de duas canetas cruzadas. Meu Deus: Hoje NEM O DIABO FOGE DA CRUZ!
Isso me
fez lembrar o diabo que morava embaixo da pia na minha cozinha, na Avenida
Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183), Diadema, grande São Paulo, em frente
a Chácara do Seu Marcílio. Hoje à noite ele vai aparecer (metaforicamente) , exatamente a meia
noite e vai falar:
QUANTO
MISTICISMO CONSEGUI COLOCAR NA MENTE HUMANA. AO INVÉS DE SE CONCENTRAREM NAS
COISAS BOAS QUE AQUELE QUE SE CHAMA DEUS FEZ, FICAM TENTANDO ENTRAR EM CONTATO
COMIGO, SEM SABER QUE JÁ FAÇO PARTE DO SEU DIA-A-DIA.
Vai beber
pinga, fumar charuto e rir com vontade, a noite inteirinha (não metaforicamente).

é isso!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirComo eu queria voltar no túnel do tempo e parar em 2015, no momento em que vc escreveu sobre esses demônios.. se soubéssemos que tipo de demônios nos aguardavam em 2022...
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