Sei que nem sempre o que achamos da gente é o que realmente somos. Não me considero uma pessoa controladora, que tenta limitar a criatividade alheia, muito pelo contrário. Fico contente quando alguém mostra suas habilidades e, fico ainda mais contente, quando alguém me faz ver o quanto sou limitado, mas que também posso me aventurar em novos rumos.
Depois que me tornei pai minha capacidade em perceber pequenos detalhes intensificou-se. Não que antes não percebesse. É que quando existe uma relação de amor, de diálogo e respeito a opiniões diversas, essa capacidade se potencializa.
Dia desses me preparei para fazer o dever de casa com minha filha, Elisa Bella, quatro anos. Li detalhadamente o que a professora pedia. Havia um desenho de duas meninas e dois meninos, sem as mãos. Era para complementar o desenho das mãos, unindo-as de maneira que todos estivessem de mãos dadas. Depois deveria pintar os desenhos.
Então separei os lápis de cor, o lápis preto, borracha e dei as orientações para Elisa. Ela fez os desenhos das mãos e logo após começou a pintar. Foi perguntando se as cores das roupas combinavam. Fiz questão de não interferir em suas escolhas. Mas quando chegou a hora de pintar os cabelos, a coisa pegou.
Ela perguntou se podia pintar os cabelos de roxo. Então separei os lápis, marrom, preto e amarelo. Desde pequeno, quando ia pintar cabelos em desenhos, eram essas cores que me detinha: marrom para cabelos castanhos, preto para pretos e amarelo para loiros, algumas vezes o vermelho para ruivos.
Mas ela insistiu, então perguntei: “Acho que não filha. Você já viu alguém de cabelo roxo?” E ela: “Já”. E eu, após alguns segundos de reflexão: “É... você tem razão. Então pode pintar”.
Detive-me em minha leitura e mais uma vez ela perguntou, para o segundo desenho: “ Papai! Posso pintar o cabelo da menina de verde?” E eu respondi: “Acho que não. Você já viu alguém de cabelo verde?” E ela: Já! E eu, após alguns segundos de reflexão: “É... você tem razão. Então pode pintar.”
Depois disso, ela pintou os cabelos dos dois últimos desenhos com os tradicionais preto e amarelo, mas não antes de eu lembrá-la de que poderia pintar os cabelos das cores que quisesse, pois o mundo é colorido.
Existem novas possibilidades de cores, não apenas aquelas que conhecemos.
Mas meus poucos cabelos, continuam castanhos.
"Poderoso não é aquele que
descobre ouro. Poderoso
para mim é aquele que
descobre as insignificâncias:
do mundo e as nossas.
Por essa pequena sentença
me chamaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios."
Manoel de Barros
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