Li uma vez, não sei aonde, que existem duas formas de tentativas em se cozer rãs vivas. Uma delas é jogá-las de uma vez em um caldeirão de água fervendo. Mas elas sentirão o calor da água e pularão para fora do caldeirão. A outra é colocá-las em um caldeirão em água gelada e aos poucos ir ateando fogo. Dessa forma elas se acostumarão com o aumento gradual de temperatura e serão cozidas, aos poucos, vivas.
Essa bela observação cabe, prontamente, ao ser humano. Acostumamos-nos tanto as coisas ao nosso redor, que até mesmo as coisas ruins que nos fazem, passam a parecer naturais, e podemos até reclamar, mas nos acomodamos aquelas situações.
O filho que cresce com o pai (ou com a mãe) grosseiro e mal educado, vê aquele comportamento como natural e não se magoa com os safanões, com a indiferença.
O aluno que tem professores despreparados, mal educados, grosseiros, enxerga aquele comportamento como natural e não se incomoda com as agressões verbais.
Perdemos aos poucos nossa capacidade de indignação, de reclamar, principalmente em tempo do “politicamente correto”, não nos dão o direito de reclamarmos, de sermos um pouco ranzinzas, de sermos críticos. Temos que nos anular em benefício de uma “coletividade” que não se sustenta quando sob a análise de uma lupa.
Considero-me um professor aprendiz. Tenho aprendido muito na minha prática pedagógica. Tenho experimentado muito. Tenho me permitido ser um pouco caótico na didática para poder observar detalhadamente o comportamento dos meus alunos.
Ás vezes perco nessa prática caótica, mas na maioria das vezes tiro lições preciosas.
A maioria dos alunos rejeita essa escola que está aí. Mas não sugerem outra no lugar. Estão tão acostumados com o caldeirão, que não percebem que estão sendo cozidos vivos.
Nessas experiências tenho deixado os alunos bem livres para criar e buscar a autonomia. Coisa complicada, mas é experimento.
Sou professor de História, mas não dou aulas tradicionais, não fico contando historinhas, passando textos no quadro, cobrando exercícios. Tento estimulá-los a, criativamente, construírem seu próprio saber, pesquisarem, construírem diálogos consigo e comigo. Tenho encontrado dificuldades. Resistência deles em sair do caldeirão.
Não estão acostumados a pensar por si, a refletir sobre seu conhecimento, sobre como este conhecimento se entrelaça com o conhecimento do outro. Como pode expandir suas estreitas visões. Estão tão ambientados ao calor da escola que não percebem a temperatura da água.
Dia desses, mudei a metodologia. Não os deixei livres, pedi para que eles copiassem um texto que estava passando no quadro branco. Logo ouvi um berro de um aluno que disse:
“- Até que enfim vamos ter uma aula de História realmente!”
É... a temperatura da água está ideal para uma escola.

È verdade estamos sendo cozidos vivos!
ResponderExcluirBacana esse texto!!
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