segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O CRISTO DESSA CASA



A vida é assim: os mais fortes sufocam os mais fracos. Esse negócio de que o mundo é de quem tem dinheiro ou de que é de quem tem conhecimento, é conversa para boi dormir. O mundo é de quem detém o poder, de quem tem mais força. E os mais fortes sempre se unem com os mais fortes. Robin Hood não existe.

Quando uma ditadura se estabelece, por exemplo, o dinheiro pode até comprar algumas coisas, mas não assegura que você vai conseguir o que quer: segurança. Os que estão no poder podem ser da classe econômica menos “abastada”, mas eles que darão as cartas. Várias revoluções mostram isso.

A Revolução Russa foi um exemplo disso. Sobre o poder de um fuzil, dinheiro não vale muito. E as decepções de quem apoiou a Revolução se propagam.

Por isso entendo bem os que se frustraram com os oito anos de Lula. Poucos vêem que ele priorizou apenas a parte econômica. Nunca estivemos tão mal de saúde pública, segurança e patinando na educação. Além disso, as drogas foram disseminadas na sociedade e as instituições estão perdendo a luta contra elas.

Um filme que mostra bem a decepção com revoluções é o Doutor Jivago. Filme antigo muito bem feito. Quem tiver paciência e gostar de cinema deve assisti-lo. Estou falando de quem gosta de cinema, não de enlatado norte-americano.

Mas voltemos ao poder. Sobre o conhecimento também paira o mesmo mito. Quando mais jovem sempre ouvia os mais velhos falando: “Quem tem o conhecimento consegue tudo”. “Quem tem o conhecimento tem o poder.” Doce ilusão. O Império Romano dominou sem dó ou piedade a Civilização Grega, berço da nossa civilização. Contra as armas e a força não existem argumentos.

Carlos Roberto da Silva, o Robertinho era meu primo, filho da Tia Teresa. Já falei em outro artigo que Robertinho não era o capeta em forma de guri, era o próprio capeta. Tinha o poder de irritar a mais calma das pessoas. Não conseguia ficar parado nem um segundo.

Certo dia, Robertinho, Amauri (meu tio) e Vladão (meu irmão) resolveram se unir e me dar porradas.

Eu devia ter uns 8 ou 9 anos, era o mais novo de todos. Robertinho o mais velho, uns 13, mas fisicamente era menor que eu. Um de seus muitos apelidos era RAQUÍTICO. Era muito magro e pequeno para sua idade. O que era compensado por sua demoníaca sede de atentar os próximos.

Os três saíram correndo atrás de mim dando voltas na casa de madeira de minha avó e, às vezes, tinha que cortar por dentro da casa, caso contrário eles me pegariam.

A casa ficava suspensa em palafitas e era toda de madeira, inclusive o assoalho. Então você deve imaginar o barulho que fazia alguém correndo dentro da casa com o assoalho oco.

Maurício Marcos Trombini, o Mauricião, era meu tio. Ele era muito grande (até hoje é) e gordo (hoje não  é mais).  Neste dia estava cuidando da gente. Devia ter uns 22 anos. Quando viu aqueles garotos correndo desembestados, gritou logo para todos pararem, caso contrário daria o “beijo na boca”. http://tomavergonhanessacaradeegua.blogspot.com/2010/06/beijo-na-boca.html

Tentei parar, mas meus inimigos momentâneos não quiseram ouvir. Ou eram as porradas dos meus algozes ou as porradas de Mauricião. Como não tinha escolha continuei a correr. Tentei não correr dentro da casa, mas chegou um momento que não deu.

Mauricião pegou uma vara que Robertinho havia encontrado na rua e quando passei perto dele só ouvi o barulho do movimento da vara em minha direção.

Quando senti a vara tocando minhas pernas logo parei depois de ouvir um “CRACK” de madeira rachando. Robertinho que vinha correndo não teve sorte alguma e recebeu a segunda varada, bem na costela, a vara se quebrou.


Na verdade a vara fez um estrago enorme na altura da costela de Robertinho, um vergão adentrou na carne dele fazendo um ferimento que assustaria qualquer um. Mas ele nem chorou.

Mauricião colocou os quatro de castigo, um em cada canto da sala. Ninguém podia falar nada. Aquele silêncio cortava mais que a vara usada por meu tio para nos bater.
Não lembro quanto tempo, mas Tia Teresa chegou logo após, com minha avó. Foram para outro cômodo da casa e discutiram. Quando entraram na sala Tia Teresa olhou para mim com olhos de Tia Teresa e falou que me odiava ( grande novidade, ela amou alguma criança?) e eu não podia falar nada (o ódio era recíproco).

Ela começou a se lamentar e falou uma frase antológica: “O Robertinho é o Cristo dessa casa”.

Não sei os outros, mas tive uma vontade imensa de rir. Não podia, caso contrário Tia Teresa voaria com sua vassoura até minha jugular. Por que não na jugular do tio Maurício? Eu era a vítima, só estava correndo para me defender.
Mas contra as armas, a violência  e a truculência não existe argumentos, principalmente quando não nos deixam argumentar.

A família toda passou a usar com ironia a frase infeliz da Tia Teresa. Quando se achavam injustiçados (e principalmente quando não eram) vinha logo, com um tremendo pesar e um sarcasmo sem medida, o bordão nos deixado como herança pela Tia Teresa:
"EU SOU O CRISTO DESSA CASA".

...continua

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