terça-feira, 7 de novembro de 2017

MALABARES







Ele estava tão bem quanto um 

bêbado que treina com 

malabares na linha férrea...





A MENTE GORDUROSA



Seu fogão era como sua mente, 

cheio de gordura e palitos de 

fósforos usados. Acumulava os palitos com o mesmo prazer e 
cansaço evidentes nas bolsas 

escuras debaixo dos seus olhos.





sábado, 4 de novembro de 2017

PRIMAVERA NOS DENTES







Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

SOBRE A MORTE



A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem para de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais [...]
A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre.

– E depois que morre?, perguntou o Visconde.

– Depois que morre, vira hipótese. É ou, não é?"

Boneca Emília in O Sítio do Pica-Pau Amarelo.





DECADÊNCIA

A decadência daquele carro a deixava 

ansiosa.

A ferrugem, os pontos pretos, a sujeira

engruvinhada , pareciam entrar por seus 

poros como uma taça de vinho tomada de

estômago vazio, avançava pela corrente 

sanguínea e chegava rapidamente ao 

cérebro. 

Toda decadência é assim, estonteante, chega 

sem dar aviso, corrói, engruvinha...







Solitude




Que a solidão que eu sinto

é a mesma da qual nasci, instrumental, 

cirúrgica,

 do bisturi rompendo a carne e o melaço

embebendo os lábios
.
Pura rotina de carne dilacerada em pensamentos

 recorrentes de açougues.

Oh ser humano , de tão humano negligente com
 sua solidão.



SÚPLICA



Que bom que não me deu a mão
quando eu não pedi...
Assim pude me esgueirar
pelas margens de precipícios,
por abismos tortuosos
estradas lamaçadas,
por campinas açoradas,

por noites mal dormidas, até voltar,
depois de temporais destruidores,
para que enfim, 
depois de tantas andanças,
não me dê a mão, 
sem que eu te peça.





O tempo



Me perco em gestos e olhares.


Me confundo com relógios de areia.

O que escorre de minhas mãos não são pedras

São cacos estilhaçados de janelas visitadas


Paro, olho, me perturbo com os tilintares dos 
bambus


A alma sossega, sussurra , espreme


Não me encaixo, caio, caibo no dedo mindinho


Na unha encravada a carne lateja


Olho novamente no espelho 


Fios brancos esparramados no rosto,


em passados, em pássaros pretos


e as matracas 


Me entrego


ao último lamento da rocha esmerilhada 


Sempre me confundi com relógios de areia.


SILVESTRE



Silvestre era o típico caiçara, cheio de malemolência e mistérios. Era para os adultos um cachaceiro, para nós crianças, um aventureiro, mestre etílico que passeava cambaleando pelas matas e saltitando magicamente os aguaceiros. Não sabíamos onde morava. Da maneira que aparecia, desaparecia, sem fazer alarde, como deveriam ser as dores da alma.


SOMBRA




Quem sabe de mim
sabe que minha sombra me acompanha.
Ela diz: "Vá embora"!
Não obedeço.
Teimoso, me embrenho nas linhas tênues
de suas veias, de suas ramificações.
Quero conhecê-la,
saber qual o limite,
quais suas nuances,
os tons de sua alma.
Receba-me,  alma minha,
acaricia-me, traduza-me e,
no cansaço da noite,
coloque-me para ninar.


terça-feira, 27 de outubro de 2015

SOBRE A ARTE EM SER PELEGO




Não sei porque, mas dói em meu estômago quando ouço o termo “pelego”. E em tempos de greve é o termo que mais ouço. Ou seja, em tempos de greve, é a época em que meu estômago, mesmo com o auxílio luxuoso do pantoprazol, mais dói. 

Não apenas pelo “pelego”, mas vitimado por milhares de jargões do tempo em que Lenin, Stálin e o camarada Trotsky ainda não estavam com  O DIABO QUE MORAVA EMBAIXO DA PIA EM MINHA COZINHA.

Sim, porque não vejo em hipótese alguma (e mesmo que acontecesse, a polícia controladora dos comunistas não divulgaria) um dos três aceitando Jesus em seu leito de morte.

O que me incomoda demais é a insistência absurda, acompanhada de constrangimentos para com as pessoas que não concordam (por motivos justos ou profundamente ridículos e infantis) com os movimentos grevistas.

Minha pergunta é: se vivemos em uma democracia, defendemos liberdade de pensamento, de orientação sexual, de culto religioso, fraternidade, justiça social (embutida aí todas as chamadas “minorias”), etc. e etc., por que achacamos, humilhamos, colocamos na mais baixa casta social os “fura-greve”?

Pelego é um termo que significa "capacho", mas também significa o trabalhador que atua contra os interesses de seus colegas de trabalho. Aquele que não se posiciona diante dos fatos. Fica em cima do muro para não ter sua zona de conforto ameaçada.

Em que situações somos pelegos no dia a dia?

Quando não nos posicionamos nas reuniões? Quando boicotamos projetos de colegas? Quando mesmo podendo contribuir de qualquer forma, nos escondemos para não “ter trabalho”? Quando,  pensando corporativamente,  votamos em um calendário de reposição porque vai beneficiar nosso grupo em detrimento de outros? 

Quando vemos injustiças no ambiente de trabalho e nos omitimos em defender o injustiçado? Quando chegamos deliberadamente atrasados? Quando comprometemos a qualidade do nosso trabalho, acochambrando? Quando somos autoritários feito “menino birrento” tentando impor nossos caprichos, nosso modo de ver o mundo?

Quando penso em meu bolso, apenas? Quando não luto para que meus benefícios  sejam ampliados a toda a sociedade?
Será que tenho que fazer greve, sempre?

Por que tenho que lutar por coisas nas quais não acredito? Por que tenho que concordar com a maioria que, quase sempre, segue cabeça baixa caminhando nos currais. Acreditando em boatos implantados, em estratégias políticas bem delineadas (por aqueles que, na busca do poder, usam os trabalhadores sim, como pelegos, para amaciar seus objetivos políticos pessoais)?

Por que não posso participar apenas das greves que eu considerar justas e racionais? Por que não posso acompanhar o gado, somente quando achar (dentro das minhas convicções, intelectuais, culturais, religiosas, da minha opção sexual, partidária, etc) que o gado está na direção correta para o coletivo da sociedade e não para apenas uma classe trabalhadora?

Por que, na minha “superioridade intelectual”, acredito que o outro deva pensar, sentir e ver o mundo da mesma forma que eu vejo?

Não devemos nos  pautar pelo gado. Fazer greve quando achar justas as reivindicações. Mas não cobrar dos  colegas, absolutamente nada. Nem mesmo perguntar  se vai ou não fazer. Nem os categorizar pejorativamente.

Não cabe a ninguém   julgá-los. Mesmo porque ser tachado de pelego é desconfortável. Cabe a nós estarmos com eles nessa caminhada, respeitando-os, entendendo-os, solidarizando com suas fraquezas e elogiando suas conquistas, dentro do coletivo.

Cada um  é dono de sua consciência.

O ser humano só chama o coletivo quando é de seu interesse pessoal, quando seus “privilégios “ são ameaçados e nas catástrofes.  Poucos são solidários, fraternos, companheiros de jornada, que se preocupam com a ética, com a justiça, com o compromisso em não ser pelego – isso no dia a dia. Contudo, não deixo de ter esperança. Até porque ela é a última que morre.

FÁCIL NÃO SER PELEGO NOS MOMENTOS DE GREVE.

DIFÍCIL É NÃO EXERCER A ARTE EM SER PELEGO NO DIA A DIA.






terça-feira, 2 de junho de 2015

O DIABO QUE MORAVA EMBAIXO DA PIA EM MINHA COZINHA



Quando eu era pequeno adorava ouvir estórias de fantasmas, saci, mula-sem-cabeça, as quais meu pai, o Sr. Idézio, contava como só os mestres contadores de estórias sabem contar. Nos sentava na área de casa que dava vista para a escuridão total da Chácara do Seu Marcilio, na Avenida Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183) em Diadema, grande São Paulo, escuridão  que só era quebrada pelas luzes dos vaga-lumes.

Suas estórias eram assustadoras, mas charmosas e cheias de assovios, caras e bocas.

Entre essas várias estórias, a do Diabo que morava embaixo da nossa pia era a que mais me assustava. As mulas sem cabeça, sacis, cuca e Cia Ltda. viviam na floresta, ou na Chácara do Seu Marcílio, o Diabo não. Morava embaixo da pia na  cozinha lá de casa.

Dizia ele que toda noite, exatamente a meia noite o capetinha (como ele se referia ao capiroto) aparecia embaixo da pia da nossa cozinha e ficava bebendo pinga, fumando charuto e rindo muito. Era vermelho com chifres, diabo típico.

No auge dos meus musculosos cinco anos, eu que dizia ser o super-homem, não conseguia mais olhar para debaixo da pia, principalmente à noite.

As vezes comia banana na sala e jogava a casca pelo corredor em direção a cozinha escura, que de tão escura parecia a Chácara de Seu Marcílio.

Minha mãe chamava minha atenção e me obrigava a ir pegar. Eu me negava e ela perguntava: Você não é o super-homem? Meu orgulho de meus cinco anos de idade não permitia que uma mulher denegrisse minha imagem. Mentalmente eu fazia o percurso da sala até a casca de banana e a cesta de lixo. Fechava os olhos e, feito um maratonista de 100 metros rasos, de olhos fechados,  em velocidade supersônica corria em direção a casca de banana e jogava ao cesto. E em uma velocidade ultra-mega-supersônica voltava correndo a sala, são e salvo, longe da escuridão da Chácara do Seu Marcílio, opa, digo, a sala de casa.

Fui crescendo e o diabo que morava embaixo da pia na cozinha lá de casa, na Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183) em Diadema, grande São Paulo, me acompanhou (metaforicamente) pelas cidades onde morei. Para mim sempre existiu e sempre existirá um capetinha  (metaforicamente) embaixo da pia na cozinha lá de casa.

Cresci e minhas crenças foram tornando-se descrenças, umas para o bem e outras talvez, para o mal,





Ultimamente tenho visto a brincadeira do “Charlie! Você está aí? ”. A brincadeira consiste em colocar uma caneta em cima de outra em forma de cruz com um papel escrito: Yes ou No e invocar Charlie, o Espirito mexicano. A brincadeira tem provocado gritos, histeria coletiva entre jovens, inclusive com estudantes ficando machucados nessa histeria coletiva.

Meu Deus, até as estórias de diabo pioraram. Quem imaginou um demônio ser invocado a partir de duas canetas cruzadas que formam umaaaaaaaaa: CRUZ.  Nas rodas de Umbanda, até os espíritos de esquerda reclamam: “ Tem alguém com os braços cruzados! Tá atrapaiando os trabaios”. Drácula, foge da cruz. O lobisomem foge da cruz.


O demônio moderno é invocado a partir de duas canetas cruzadas. Meu Deus:  Hoje NEM O DIABO FOGE DA CRUZ!


Isso me fez lembrar o diabo que morava embaixo da pia na minha cozinha, na Avenida Visconde do Rio Branco, 104 (antigo 183), Diadema, grande São Paulo, em frente a Chácara do Seu Marcílio. Hoje à noite ele vai aparecer (metaforicamente) , exatamente a meia noite e vai falar:


QUANTO MISTICISMO CONSEGUI COLOCAR NA MENTE HUMANA. AO INVÉS DE SE CONCENTRAREM NAS COISAS BOAS QUE AQUELE QUE SE CHAMA DEUS FEZ, FICAM TENTANDO ENTRAR EM CONTATO COMIGO,  SEM SABER QUE JÁ FAÇO PARTE DO SEU DIA-A-DIA.


Vai beber pinga, fumar charuto e rir com vontade, a noite inteirinha (não metaforicamente).