segunda-feira, 25 de julho de 2011

PSEUDOIMBECILIDADE E PSEUDOINTELIGÊNCIA

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANA

As crianças criam a "pseudoimbecilidade" como forma de se defenderem. Fazem-se passar por estúpidas quando estão num contexto que não podem nem aceitar nem modificar. Leio isto no livro A AMBIGUIDADE de Simona Argentieri, que sairá brevemente no Brasil



Serão só as crianças?


Paro a leitura e penso. O que isto teria a ver com o conceito de "servidão voluntária" de que falava, há mil e quinhentos anos, o filósofo Boethius no decadente Império Romano? Tem gente que aceita silenciar-se, moldar-se, ser subalterno ou se comporta como os animais que se mimetizam com o ambiente para não serem notados. É' um tipo de esperteza, esperteza que consiste em parecer estúpido.


Como variante disto, penso também na questão das pessoas que se inserem numa ideologia que está na moda. É' uma maneira de se exibir usando uma carapaça charmosa. E isto me leva logo a uma outra categoria que poderíamos criar- a do "pseudointeligente". Uma pessoa pode, por exemplo, passar por " inteligente" nos meios acadêmicos e nos bares simplesmente recitando o receituário de uma certa filosofia ou de um autor que entrou na moda. Pode passar por alguém que está "por dentro" quando na verdade realmente ele está por dentro, ou seja, é um parasita da ideologia dominante,


Se o "pseudoimbecil" se retrai ocultando a sua verdadeira opinião, como casca, para se defender ( mecanismo que Winnicott estudou), o segundo avança criando uma máscara de falso ajustamento, e quando sozinho não sabe o que fazer da angústia e da insatisfação que esse comportamento deixa residualmente.


Os regimes autoritários, as inquisicões, as patrulhas ideológicas obrigam o indivíduo a esconder sua verdadeira opinião. Realmente é um risco desafinar no "coro dos contentes". Alguns perdem a cabeça, o emprego, o espaço nos jornais.


A "pseudointeligência" que é uma maneira sábia de ser covarde, nos leva a consumir o que está na ordem do dia, seja a moda, a roupa, a música, a arte e até a comida. Os argumentos usados, já que são gerados por um "falso ego" -o da máscara, repetem a vulgata, o discurso alheio. Poder-se-ia dizer que neste caso, são pessoas que não têm "redação própria" ou "autonomia de vôo" .


A coisa é tão complexa e sutil e, às vezes, tão paradoxal que a cultura contemporânea tem incentivado a "pseudointeligencia" de formas novas. A ascensão das nulidades, o culto ao mercado, a necessidade de seduzir as classes C, D e E estão embaralhando não só sujeitos e objetos, mas sobretudo os conceitos.
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Se você quer ler o Discurso Sobre a Servidão Voluntária de Etienne de La Boétie acesse
 
http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/boetie.pdf
 

sábado, 16 de julho de 2011

TINHA...



Esta semana fui a um show de blues. Sensacional. Quantos músicos excelentes “perdidos”
 ou “achados” neste "mundão véio" de meu Deus, ou do demo. Foi no Teatro Goiânia Ouro, Centro de Goiânia. Vale a pena. Programação de qualidade todsos dias da semana.

Dez a vinte mesas distribuídas no saguão de entrada. Um bar simpático e um palco que mal cabia a bateria e o guitarrista. O baixista ficava sentado fora do palco. Blues de primeira. Toda terça, chova ou faça sol, haja eclipse ou a lua cintile, todas terças após as 21h00 o blues rola.

A platéia também interessantíssima. Também, para gostar de blues tem que ser.

Tinha de tudo.

Tinha um rapaz com cabelo lambido, gravatinha tipo... a cara do Restart.

Tinha mauricinho que estava ali não sei pra quê.


Tinha garotas esboçando uma dança tipo... “eu detesto blues, mas estou aqui porque não tinha nada mais legal para fazer. Quem sabe me confundam com uma intelectual só por estar aqui”.

Tinha a garota  que queria ser comida pelo baixista.

Tinha motociclistas enchendo a caveira e contando lembranças, acompanhando o guitarrista com guitarras imaginárias.

Tinha o casalzinho romântico que não estava preocupado com o blues...mas com os beijos.

           Tinha os cabeludos chapados que balançavam a cabeça para mostrar que tem cabelos (só pra me fazer raiva e inveja).

Tinha o executivo de terno e gravata.

Tinha as patricinhas que não paravam de falar,  e também não prestavam atenção no show.

Tinha o bêbado

inconveniente que insistia
em dançar na

frente do palco e pedir Legião Urbana


E tinha a garota com olhar distante, risadas espaças e tristeza profunda de quem perdeu um amor, ou nunca o achou.

Tinha mais...

Ou seja, tinha de tudo. Assim como a vida deveria ser. Uma variação de cores, de tons, de linhas desalinhadas e linhas certas,  variações de clichês e frases originais, de desilusões e ilusões, de amores e desamores, de dores e prazeres.
 Nada pasteurizado, nada arrumadinho,
tudo démodé e nada démodé.

Por que insistimos em padronizar tudo e todos?

 Pausterizar a vida elimina a beleza das diferenças. Tentar eliminar os defeitos, qualidades, as "impurezas" da alma,  pode ser perigoso. Pode produzir efeitos colaterais.


Ah! E tinha eu.


 Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro
Rua 03, esquina com Rua 09, nº 1016, Galeria Ouro, Centro - Goiânia - Goiás
http://www.goianiaouro.com/contato.php