segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MÁSCARAS : PAPO DE PROFESSOR



Em casa somos dois professores Os dois de História. Então, nosso ciclo de convivência  passa, inevitavelmente,  por professores.
Um dia desses ouvi um papo, digamos... mais do que interessante.
Conversavam três professores  a respeito de um candidato a deputado distrital. Chamou-me a atenção uma vez que o candidato era professor.

Um deles falou:
- Ele é gente fina. Vai resolver seu problema. É só ligar para ele.
Outra professora perguntou o que era,  o primeiro falou:
- Você paga o curso de pós-graduação, recebe o diploma daqui a quinze dias, dá entrada na solicitação de gratificação junto a Secretaria de Educação e só depois começa a fazer o curso.

Interessante o sistema. E o mais interessante é que conversavam sobre isso como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Então perguntei qual o candidato. Caso fosse votar nele,  não cometeria  um erro tão grande.
Ao ver o santinho do candidato me deparei com um ex-colega de trabalho. Não fiquei surpreso, o camarada é bem capaz de fazer isso.
Também não fiquei surpreso com  o esquema, todos sabem que existe e ninguém tem a coragem de fazer nada para acabar com ele.
O que talvez tenha me surpreendido, e muito, foi a naturalidade com que o assunto era tratado e o local , uma escola. 
Como se fosse normal, um professor burlar o sistema de formação continuada.
Com qual moral esse professor vai falar com seus alunos ou com seus colegas sobre ética, sobre coletividade, sobre dignidade.

Não sou  inocente em achar que  não exista a desonestidade, ela é inerente ao ser humano. Todos nós temos esse bichinho e tantos outros: inveja, ódio, rancor, contradições, etc, etc e etc. O que podemos fazer é ficar atentos e não deixar que esses sentimentos nos conduzam.
Temos que ter controle.

Mas não podemos escancarar nossa podridão como se fosse um comportamento natural e aceitável  em uma vida em coletividade.


Gilles Lipotveski, em seu livro A Era do Vazio,  aborda que a sociedade contemporânea não se preocupa mais com as máscaras.  Deixou caírem todas elas sem pudor, nem dó  nem piedade.
Acredito que ele esteja certíssimo. Ao deixar cair as máscaras, todos  mostraram sua podridão, como se  todas as demais pessoas tivessem a obrigação de conviver com o fedor.
Os reality shows como o BBB evidenciam isso. Cada um pode ser como quiser e todos tem que respeitar as pessoas sem máscaras, exibindo a nudez da alma.

As máscaras são importantes para manter a distância entre as pessoas. E essa distância a civilidade necessária. Assim evitar a proliferação da violência gratuita a que nossa sociedade está exposta.

Infelizmente tenho ouvidos. E ouço, muito bem, apesar de meus problemas auditivos, se é que você me entende.

Essa vida é um grande salão de baile a fantasias, cada um com a sua, algumas bonitas, outras feias.
Por baixo das máscaras podemos ser quem realmente somos. Sem avançar sobre o espaço do outro.

Somente por isso,  a vida sempre será  interessante, bela e excitante.

Podemos descobrir os segredos  por baixo das máscaras, aos poucos, com surpresas diárias.

Não temos o direito de acabar com esse charme da vida.

Coloquemos nossas máscaras.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

QUERIDA GERTRUDES

Nos últimos oito anos,  tenho tido a rotina de nomear tudo que está a minha volta. De objetos a doenças. Assim nasceu o Cascão, meu Gol 1997, branco, que recebeu esse nome por, como o personagem de Mauricio de Souza, não gostar de tomar banho. Há também o Cebolinha, um Pálio que possui uma antena externa que me lembrou o cabelo do também personagem da Turma da Mônica.

Têm o Frederico e o Toni Ramos, dois ursos de Elisa Bella.

E as distintas Gertrudes e Jurema. Minha gastrite e minha artrose, respectivamente.

São tratadas com muito respeito. Afinal de contas, a convivência com as duas não tem sido nada harmoniosa.

Acho que ouvi do Dr. Dráuzio Varella, não tenho muita certeza, que a vida na Terra nada mais é do que a luta constante, incessante, interminável e incansável entre bactérias. Uma tentando sobrepor-se a outra.  O corpo humano é  um hospedeiro de luxo para elas. Ou seja, nosso corpo passa por um processo constante de degeneração.
Sempre admirei o ator Paulo José por sua capacidade criativa e interpretativa. Adorava o seriado Shazan e Xerife e outros trabalhos deste belo  ser humano. Passei admirá-lo mais ainda depois que assisti uma entrevista na qual  falava sobre o Mal de Parkinson. Ele dizia que se “acostumou” ao processo degenerativo da doença. Que independentemente da doença, o corpo humano, após os trinta anos, entra inevitavelmente no processo degenerativo.

Jurema já co-habita comigo, neste mundinho de meu Deus, há algum tempo. Tento tratá-la com o máximo de carinho. Como toda mulher, é meio mandona e cheia de vontades, e já avisou que não larga do meu pé. Portanto devo me preparar para a impossibilidade de divórcio.
Gertrudes chegou a pouco mais de dois meses, já havia dado sinais de sua vinda. Eu que não percebi. Sou meio desligado (Perdoa-me aqueles que me amam, por minhas distrações).

Vou tratá-la com todo carinho. Sei que vou ter que mudar totalmente os meus hábitos para cuidar de você da maneira que merece. Mas farei com a maior boa vontade. Afinal de contas você faz parte de meu processo degenerativo, inevitável a qualquer um de nós.

Seja bem-vinda, querida Gertrudes!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O CONVITE



Há pessoas que acreditam que existem assuntos que não se devam tocar. Usam o chavão: “quanto mais se mexe na merda, mais ela fede”.
Não concordo. Sempre acreditei que no processo ensino-aprendizagem da vida, em todos os níveis, não existem assuntos intocáveis. Muito pelo contrário, devemos abordar qualquer assunto. Tanto que, com meus alunos, sempre estive aberto para falar sobre qualquer tema e a qualquer momento, sem tabus e preconceitos.
Mas não tenho visto pessoas, principalmente adultos, disponíveis para tanto. Muito pelo contrário, sempre fogem de assuntos que lhe são... digamos ... inconvenientes. Principalmente quando sua zona de conforto é colocada em risco.
Ontem Elisa Bella quase me fez chegar atrasado ao serviço. Bem na hora de sair ela ficou de cócoras e fez cocô. Estava de calcinha, meia-calça, shorts e claro tênis. Como bom pai, fui limpar. Foi merda prá tudo quanto é lado. Quando vi seu pé estava lambuzado, limpei. Depois percebi que minha mão também fora premiada, limpei-a. Vi que o lençol da cama também estava sujo. O relógio corria rapidamente. Entrava às 7h30... cheguei às 7h27... em tempo.
Não era necessário o desespero. Aprendi e cresci, em função do cocô da minha filha.
Acho que Deus, na sua sabedoria, ao criar o homem, pensou: “Vou fazer o homem viver próximo a merda, para sempre lembrar-se da sua condição. Defecarás todos os dias”.
Para onde voltaremos, para a terra, adubar a terra para o ciclo inevitável da vida.  
Ao defecar todos os dias, devemos lembrar-nos que é fundamental colocarmos o dedo na merda, refletir sobre nossos defeitos, nossas imperfeições, nossa finitude, reavaliar. Enxergar que nem sempre temos razão.
Que viver em relações dialógicas é possível.
E a partir daí adubar o mundo com nosso renascimento diário, adubar as mentes com esperança, com carinho, com o cuidar e com o ser cuidado.  
CONVIDO TODOS A DEFECAR!
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sábado, 14 de agosto de 2010

CAL - CLUBE ATLETICO LINENSE - SP

O ELEFANTE DA NOROESTE (SP) -
RUMO AO INTER-PLANETÁRIO DE CLUBES

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ABAIXO OS PIJAMAS DE BOLINHAS

Alguns adultos não conseguem compreender que determinadas roupas causam um trauma, às vezes irreversíveis, nas crianças.


Depois de 38 anos consegui comprar um pijama. Olhei, gostei e comprei.

Antes disso, nada e nem ninguém me faria usar um pijama. Trauma de infância.

No dia em que completei cinco anos, minha doce finada tia Cacilda, isso mesmo, minha doce finada tia Cacilda foi nos fazer uma visita. Trazia nas mãos, orgulhosamente, um embrulho. Um presente para mim.

Mas não era um presente qualquer. Era um VULTOSO PRESENTE: um pijama de bolinhas pretas.



Não havia nada mais ultrajante, asqueroso e ridículo para um garoto, do que um PIJAMA DE BOLINHAS, ainda mais bolinhas pretas. Não era nada relacionado à minha condição de palmeirense, totalmente contrária aos alvinegros corintianos. É porque era de bolinhas pretas.

Minha condição de macho em potencial, não admitia vestir um pijama com este designer. Mas minha mãe, num gesto de cordialidade, me obrigou a vestir o pijama antes de despedir-me da doce finada tia Cacilda. Fui para a cama como quem vai para a cruz, para a forca, humilhado pela formal cordialidade dos adultos.


Tive pesadelos a noite inteira. As bolinhas pretas vinham em minha direção rindo, não... rindo não, debochando, zombando,  querendo me engolir.
Como olharia para os outros meninos no outro dia? E minha condição de macho, de militante contra os pijamas de bolinhas pretas?



Acordei de madrugada com uma dor de barriga lancinante, a qual jamais tivera ou tive em toda minha vida.



Fui até o banheiro. Ocupado. Meu pai estava lá, fazendo o que não sei. Bati novamente... nada. Ouvi de lá: “-O pai já vai sair”.

Fiquei pulando... segurando... até que senti um sorriso ... diria ... diabólico na minha cara... então me esvai. Nunca me borrei nas calças, digo no pijama, com tanta intensidade, vontade e FALTA DE VERGONHA NA MINHA CARA DE ÉGUA. Meu pai teve que me limpar.

Nunca mais vi o pijama de bolinhas pretas da  doce finada  tia Cacilda.



Contra o pijama de bolinhas pretas, contra o autoritarismo dos adultos e a favor da autonomia de escolha das roupas pelas crianças e adolescentes , comprei um pijama vermelho, listrado de  branco com o calção preto (sem bolinhas brancas).

ABAIXO A DITADURA DO PIJAMA DE BOLINHAS (PRINCIPALMENTE OS PRETOS).

" 'jaza' em paz tia Cacilda"

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

UM PEREIRA LEGÍTIMO

Nuno Alváres Pereira

Em minha família sempre contestamos  os sobrenomes que nossos pais nos deram. Meu pai  tinha o sobrenome errado. Minha avó por parte de pai  era  Izaltina Ricardina de Campos e meu avó Augusto Pereira Martins, meu pai Idézio Pereira de Campos.  Minha avó por parte de mãe era Nair Del Corso Trombini, meu avô Antonio Trombini e minha mãe Helena Quitéria Trombini.  Portanto  , o nome de meu pai deveria ser Idézio Campos Martins e o meu Valmir Trombini Martins. Tornei-me Valmir  M Pereira Campos. Quando criança não gostava do Pereira. Com o passar do tempo percebi a besteira que isso significa.

Quando meu pai morreu (2001) , em seu velório,  presenciei uma discussão interessante entre uma tia  e um tio meus. Eles discutiam quais os irmãos de meu pai eram os “Pereira” legítimos .
Discutiam ardorosamente tentando usar todos os argumentos possíveis para convencer,  um ao outro, quais  irmãos que seriam os herdeiros legítimos do sobrenome “Pereira”
Tive vontade de rir no velório de meu pai. Mas a cena foi hilária em momento trágico.

Aquela discussão nunca saiu de minha cabeça

Minha filha, hoje com três anos, não herdou o  sobrenome  dos legítimos “Pereiras”.  É Elisa Bella Campos.
Tentei abreviar o possível e tirar o nobre nome de meus antepassados,  que possivelmente plantavam pereiras em Portugal.

Dias desses,  conversando  com Elisa,   fiquei surpreso quando perguntei seu nome. Ela , com um ar solene  que só os nobres possuem,  “tascou” um Elisa Bella Pereira Campos.

Não adianta tentar fugir do seu destino, quem nasceu para ser Pereira sempre será um Pereira, mas   legítimo.

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