Em casa somos dois professores Os dois de História. Então, nosso ciclo de convivência passa, inevitavelmente, por professores.
Um dia desses ouvi um papo, digamos... mais do que interessante.
Conversavam três professores a respeito de um candidato a deputado distrital. Chamou-me a atenção uma vez que o candidato era professor.
Um deles falou:
- Ele é gente fina. Vai resolver seu problema. É só ligar para ele.
Outra professora perguntou o que era, o primeiro falou:
- Você paga o curso de pós-graduação, recebe o diploma daqui a quinze dias, dá entrada na solicitação de gratificação junto a Secretaria de Educação e só depois começa a fazer o curso.
Interessante o sistema. E o mais interessante é que conversavam sobre isso como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Então perguntei qual o candidato. Caso fosse votar nele, não cometeria um erro tão grande.
Ao ver o santinho do candidato me deparei com um ex-colega de trabalho. Não fiquei surpreso, o camarada é bem capaz de fazer isso.
Também não fiquei surpreso com o esquema, todos sabem que existe e ninguém tem a coragem de fazer nada para acabar com ele.
O que talvez tenha me surpreendido, e muito, foi a naturalidade com que o assunto era tratado e o local , uma escola.
Como se fosse normal, um professor burlar o sistema de formação continuada.
Com qual moral esse professor vai falar com seus alunos ou com seus colegas sobre ética, sobre coletividade, sobre dignidade.
Não sou inocente em achar que não exista a desonestidade, ela é inerente ao ser humano. Todos nós temos esse bichinho e tantos outros: inveja, ódio, rancor, contradições, etc, etc e etc. O que podemos fazer é ficar atentos e não deixar que esses sentimentos nos conduzam.
Temos que ter controle.
Mas não podemos escancarar nossa podridão como se fosse um comportamento natural e aceitável em uma vida em coletividade.
Gilles Lipotveski, em seu livro A Era do Vazio, aborda que a sociedade contemporânea não se preocupa mais com as máscaras. Deixou caírem todas elas sem pudor, nem dó nem piedade.
Acredito que ele esteja certíssimo. Ao deixar cair as máscaras, todos mostraram sua podridão, como se todas as demais pessoas tivessem a obrigação de conviver com o fedor.
Os reality shows como o BBB evidenciam isso. Cada um pode ser como quiser e todos tem que respeitar as pessoas sem máscaras, exibindo a nudez da alma.
As máscaras são importantes para manter a distância entre as pessoas. E essa distância a civilidade necessária. Assim evitar a proliferação da violência gratuita a que nossa sociedade está exposta.
Infelizmente tenho ouvidos. E ouço, muito bem, apesar de meus problemas auditivos, se é que você me entende.
Essa vida é um grande salão de baile a fantasias, cada um com a sua, algumas bonitas, outras feias.
Por baixo das máscaras podemos ser quem realmente somos. Sem avançar sobre o espaço do outro.
Por baixo das máscaras podemos ser quem realmente somos. Sem avançar sobre o espaço do outro.
Somente por isso, a vida sempre será interessante, bela e excitante.
Podemos descobrir os segredos por baixo das máscaras, aos poucos, com surpresas diárias.
Não temos o direito de acabar com esse charme da vida.
Coloquemos nossas máscaras.





