terça-feira, 27 de outubro de 2015

SOBRE A ARTE EM SER PELEGO




Não sei porque, mas dói em meu estômago quando ouço o termo “pelego”. E em tempos de greve é o termo que mais ouço. Ou seja, em tempos de greve, é a época em que meu estômago, mesmo com o auxílio luxuoso do pantoprazol, mais dói. 

Não apenas pelo “pelego”, mas vitimado por milhares de jargões do tempo em que Lenin, Stálin e o camarada Trotsky ainda não estavam com  O DIABO QUE MORAVA EMBAIXO DA PIA EM MINHA COZINHA.

Sim, porque não vejo em hipótese alguma (e mesmo que acontecesse, a polícia controladora dos comunistas não divulgaria) um dos três aceitando Jesus em seu leito de morte.

O que me incomoda demais é a insistência absurda, acompanhada de constrangimentos para com as pessoas que não concordam (por motivos justos ou profundamente ridículos e infantis) com os movimentos grevistas.

Minha pergunta é: se vivemos em uma democracia, defendemos liberdade de pensamento, de orientação sexual, de culto religioso, fraternidade, justiça social (embutida aí todas as chamadas “minorias”), etc. e etc., por que achacamos, humilhamos, colocamos na mais baixa casta social os “fura-greve”?

Pelego é um termo que significa "capacho", mas também significa o trabalhador que atua contra os interesses de seus colegas de trabalho. Aquele que não se posiciona diante dos fatos. Fica em cima do muro para não ter sua zona de conforto ameaçada.

Em que situações somos pelegos no dia a dia?

Quando não nos posicionamos nas reuniões? Quando boicotamos projetos de colegas? Quando mesmo podendo contribuir de qualquer forma, nos escondemos para não “ter trabalho”? Quando,  pensando corporativamente,  votamos em um calendário de reposição porque vai beneficiar nosso grupo em detrimento de outros? 

Quando vemos injustiças no ambiente de trabalho e nos omitimos em defender o injustiçado? Quando chegamos deliberadamente atrasados? Quando comprometemos a qualidade do nosso trabalho, acochambrando? Quando somos autoritários feito “menino birrento” tentando impor nossos caprichos, nosso modo de ver o mundo?

Quando penso em meu bolso, apenas? Quando não luto para que meus benefícios  sejam ampliados a toda a sociedade?
Será que tenho que fazer greve, sempre?

Por que tenho que lutar por coisas nas quais não acredito? Por que tenho que concordar com a maioria que, quase sempre, segue cabeça baixa caminhando nos currais. Acreditando em boatos implantados, em estratégias políticas bem delineadas (por aqueles que, na busca do poder, usam os trabalhadores sim, como pelegos, para amaciar seus objetivos políticos pessoais)?

Por que não posso participar apenas das greves que eu considerar justas e racionais? Por que não posso acompanhar o gado, somente quando achar (dentro das minhas convicções, intelectuais, culturais, religiosas, da minha opção sexual, partidária, etc) que o gado está na direção correta para o coletivo da sociedade e não para apenas uma classe trabalhadora?

Por que, na minha “superioridade intelectual”, acredito que o outro deva pensar, sentir e ver o mundo da mesma forma que eu vejo?

Não devemos nos  pautar pelo gado. Fazer greve quando achar justas as reivindicações. Mas não cobrar dos  colegas, absolutamente nada. Nem mesmo perguntar  se vai ou não fazer. Nem os categorizar pejorativamente.

Não cabe a ninguém   julgá-los. Mesmo porque ser tachado de pelego é desconfortável. Cabe a nós estarmos com eles nessa caminhada, respeitando-os, entendendo-os, solidarizando com suas fraquezas e elogiando suas conquistas, dentro do coletivo.

Cada um  é dono de sua consciência.

O ser humano só chama o coletivo quando é de seu interesse pessoal, quando seus “privilégios “ são ameaçados e nas catástrofes.  Poucos são solidários, fraternos, companheiros de jornada, que se preocupam com a ética, com a justiça, com o compromisso em não ser pelego – isso no dia a dia. Contudo, não deixo de ter esperança. Até porque ela é a última que morre.

FÁCIL NÃO SER PELEGO NOS MOMENTOS DE GREVE.

DIFÍCIL É NÃO EXERCER A ARTE EM SER PELEGO NO DIA A DIA.