Não sei porque, mas dói em meu
estômago quando ouço o termo “pelego”. E em tempos de greve é o termo que mais
ouço. Ou seja, em tempos de greve, é a época em que meu estômago, mesmo com o auxílio
luxuoso do pantoprazol, mais dói.
Não apenas pelo “pelego”, mas vitimado por
milhares de jargões do tempo em que Lenin, Stálin e o camarada Trotsky ainda
não estavam com O DIABO QUE MORAVA EMBAIXO DA PIA EM MINHA COZINHA.
Sim, porque não vejo em hipótese alguma (e mesmo que acontecesse, a polícia controladora dos comunistas não divulgaria) um dos três aceitando Jesus em seu leito de morte.
Sim, porque não vejo em hipótese alguma (e mesmo que acontecesse, a polícia controladora dos comunistas não divulgaria) um dos três aceitando Jesus em seu leito de morte.
O que me incomoda demais é a insistência
absurda, acompanhada de constrangimentos para
com as pessoas que não concordam (por motivos justos ou profundamente ridículos
e infantis) com os movimentos grevistas.
Minha pergunta é: se vivemos
em uma democracia, defendemos liberdade de pensamento, de orientação sexual, de
culto religioso, fraternidade, justiça social (embutida aí todas as chamadas
“minorias”), etc. e etc., por que achacamos, humilhamos, colocamos na mais
baixa casta social os “fura-greve”?
Pelego é um termo que
significa "capacho", mas também significa o trabalhador que atua
contra os interesses de seus colegas de trabalho. Aquele que não se posiciona
diante dos fatos. Fica em cima do muro para não ter sua zona de conforto
ameaçada.
Em que situações somos pelegos
no dia a dia?
Quando não nos posicionamos
nas reuniões? Quando boicotamos projetos de colegas? Quando mesmo podendo contribuir
de qualquer forma, nos escondemos para não “ter trabalho”? Quando, pensando
corporativamente, votamos em um calendário de reposição porque vai beneficiar
nosso grupo em detrimento de outros?
Quando vemos injustiças no ambiente de
trabalho e nos omitimos em defender o injustiçado? Quando chegamos deliberadamente
atrasados? Quando comprometemos a qualidade do nosso trabalho, acochambrando?
Quando somos autoritários feito “menino birrento” tentando impor nossos
caprichos, nosso modo de ver o mundo?
Quando penso em meu bolso,
apenas? Quando não luto para que meus benefícios sejam ampliados a toda a sociedade?
Será que tenho que fazer
greve, sempre?
Por que tenho que lutar por coisas
nas quais não acredito? Por que tenho que concordar com a maioria que, quase sempre,
segue cabeça baixa caminhando nos currais. Acreditando em boatos implantados,
em estratégias políticas bem delineadas (por aqueles que, na busca do poder,
usam os trabalhadores sim, como pelegos, para amaciar seus objetivos políticos
pessoais)?
Por que não posso participar apenas das greves que eu considerar
justas e racionais? Por que não posso acompanhar o gado, somente quando achar (dentro
das minhas convicções, intelectuais, culturais, religiosas, da minha opção
sexual, partidária, etc) que o gado está na direção correta para o coletivo da
sociedade e não para apenas uma classe trabalhadora?
Por que, na minha “superioridade
intelectual”, acredito que o outro deva pensar, sentir e ver o mundo da mesma
forma que eu vejo?
Não devemos nos pautar pelo gado. Fazer greve quando achar justas as reivindicações. Mas
não cobrar dos colegas, absolutamente nada. Nem mesmo perguntar se vai ou não
fazer. Nem os categorizar pejorativamente.
Não cabe a ninguém julgá-los. Mesmo
porque ser tachado de pelego é desconfortável. Cabe a nós estarmos com eles nessa
caminhada, respeitando-os, entendendo-os, solidarizando com suas fraquezas e
elogiando suas conquistas, dentro do coletivo.
Cada um é dono de sua consciência.
O ser humano só chama
o coletivo quando é de seu interesse pessoal, quando seus “privilégios “ são
ameaçados e nas catástrofes. Poucos são solidários, fraternos, companheiros de jornada, que se preocupam com a
ética, com a justiça, com o compromisso em não ser pelego – isso no dia a dia.
Contudo, não deixo de ter esperança. Até porque ela é a última que morre.
FÁCIL NÃO SER PELEGO NOS
MOMENTOS DE GREVE.
DIFÍCIL
É NÃO EXERCER A ARTE EM SER PELEGO NO DIA A DIA.
