terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A SOMBRA DE PETER PAN




Desde pequeno fui fascinado pelo desenho Peter Pan. As variações das cores verdes e pastéis, do desenho, misturavam irreverência e melancolia juntos.
 
Voar significava muito para mim,  sempre voei em sonhos recorrentes. Algumas vezes  de maneira simples e objetiva, como Peter Pan, outras no meio de bruxas velhas e feias em suas vassouras.

Me deliciava quando Peter Pan  brincava com sua sombra. A sombra era mais irreverente do que o dono, insistia em pregar peças em Peter. Até que Wendy tem a idéia de costurar a sombra de Peter Pan.

Wendy tinha a função de mãe dos meninos na Terra do Nunca. Mães adoram costurar sombras de seus filhos.

Assim como a sombra de Peter Pan a vida sempre prega peças . Isso  a torna,  ao mesmo tempo,  bela e dolorosa. 

As brincadeiras que a vida faz nem sempre são confortáveis.  É esse desconforto que , às vezes para alguns e na maioria das vezes para outros, nos faz caminhar, evoluir , nos fazer cientes do nível de dor que nos traz  nossa existência.

Essas dores podem nos cegar. Conduzir-nos para  a clausura, nos fechar para novas possibilidades, nos encerrar nos padrões sociais ( nos clichês  da ciência acadêmica, nos clichês religiosos, nos clichês da rotina da vida).

 Sem perceber,  vamos  deixando nos  moldar  na estrutura da sociedade 
e deixando a alma, o espírito e o corpo,  cada dia mais mornos.

É como conserto em  dente cariado. No início a resina usada para tapar o buraco incomoda um pouco e a língua insiste em tocá-la para perceber aquele corpo estranho.

 Com o passar dos dias aquela estrutura vai tornando-se parte de nosso corpo.

A clausura existencial nos conduz a esse caminho, a  alma morna. E a alma morna a certezas absolutas.
Essas certezas  produzem pessoas que   traçam seus destinos: céu, inferno ou o nada absoluto.
E qualquer coisa que, supostamente, vá em direção contrária ao que acreditem é ridicularizado,  conceituado como sem coerência intelectual, não racional.

Para evitar a dor existencial tem-se  que produzir certezas de trajetos, caminhos seguros.  A dor existencial tem que ser amenizada.

 A vida não é e nunca será caminho seguro.  Temos obrigação de sentir as dores do mundo.
São elas que nos fazem humanos.

 Se esquecermos delas,  perdemos nossa condição de humanos. 

As dores do mundo são fundamentais para nossa existência.

Apesar de ser uma bela música, “AS DORES DO MUNDO” , de Hildon,  gravada também pela banda Jota Quest, mostra o quanto o ser humano é possessivo e egoísta.

“Eu vou esquecer de tudo
Das dores do mundo
Só quero saber do seu
Do nosso amor”


Só posso saber do seu, do nosso amor se tiver noção das dores do mundo. 

Caso contrário, como posso amar?

Não quero uma alma  morna e,  principalmente, não quero que Wendy costure minha SOMBRA. Deixe ela, ao menos,  ser  irreverente, livre e  conhecer a mim,  mais do que eu mesmo.